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Entrevistas / Paulo Vivacqua
 
  ''O sistema logístico nacional é arcaico''
O engenheiro civil Paulo Augusto Vivácqua faz avaliações sobre este cenário e indica alternativas para renovação do sistema logístico nacional.

Presidente do Corredor Centro-Leste e do Corredor Atlântico do Mercosul, vice-presidente para Assuntos Tecnológicos e presidente do Comitê de Transportes da Academia Nacional de Engenharia (ANE)
Academia Nacional de Engenharia (ANE)
29/10/2009

Macaé Offshore – A indústria no Brasil como um todo, especialmente a de petróleo e gás, tem se desenvolvido de forma significativa e impulsionado investimentos para segmentos correlacionados, como o de infraestrutura e logística. Qual sua avaliação sobre o atual sistema logístico nacional?
Paulo Vivácqua -
Em geral, toda a infraestrutura logística nacional, inclusive a de petróleo e gás, está muito aquém das necessidades do País hoje. Essa não é apenas uma questão de falta de investimentos, mas sim de um plano logístico integrado. É preciso implementar um projeto que contemple de forma racional os vários módulos de transporte. Nosso sistema atual é principalmente rodoviário, não havendo uma complementaridade entre as malhas ferroviárias, rodoviárias e hidroviárias. Isso se reflete na indústria de petróleo e gás, que precisa de soluções eficazes para o transporte de máquinas, insumos, pessoas e equipamentos.

MO – Quais as dificuldades para o desenvolvimento desse plano logístico?
PV –
A política de transporte global do País é feita em nome de grupos de interesse. Falta vontade política para produzir um plano adequado e então sim canalizar e direcionar adequadamente os investimentos, tanto públicos, quanto privados. O discurso e a ação políticos estão completamente dissociados.

MO – Governos de alguns estados têm anunciado investimentos nos setores portuário e naval. Como enxerga essas iniciativas?
PV –
Os investimentos previstos são ações pontuais, o que não quer dizer que não sejam importantes. Porém são ações localizadas para resolver problemas de vários pontos do País. Existem portos em todas as cidades litorâneas e, mesmo assim, a comunicação entre elas é feita principalmente pela rodovia BR-101. Esse é um grande gargalo, uma vez que 80% da população está na costa. Provavelmente esse é o maior mercado potencial para navegação costeira do mundo.

MO – Quais são as alternativas para desenvolver este potencial?
PV –
O transporte entre as cidades costeiras deveria ser predominantemente por navegação de cabotagem. Estamos falando de uma faixa litorânea cujo comprimento se situa entre sete e oito mil quilômetros. As cidades costeiras, através de seus prefeitos, deveriam se unir num movimento nacional para criar uma legislação eficaz que leve ao desenvolvimento da cabotagem e à atração do investimento privado para elas. Além disso, deveria ser empreendida uma melhoria consistente nas condições dos portos, para torná-los altamente favoráveis à navegação, em termos de velocidade de operações, tarifas, dentre outras facilidades.

MO – Uma pesquisa realizada no setor logístico aponta que a maior dificuldade para encontrar profissionais no setor é a falta de qualificação, num índice de 24%. A que fatores atribui esta deficiência?
PV –
A logística, de uma forma mais ampla e racional, foi esquecida nos currículos porque o Brasil era um país que considerava esta atividade baseada tão somente em transporte rodoviário. A predominância quase absoluta das rodovias gerou este quadro de carência profissional. De que adiantava a formação de engenheiros em portos se quase não existiam obras portuárias, se o setor estava quase estagnado? Ou em ferrovias se não existe expansão ferroviária? Logística é uma questão de engenharia e tecnologia aplicadas ao transporte, seu desenvolvimento requer a existência de engenheiros de transporte com formação em sentido amplo.

MO – As políticas ambientais estão sendo aperfeiçoadas e se tornando cada vez rígidas. Na prática, a fiscalização das obras tem atendido a tais requisitos?
PV –
Sim, hoje quando se vai projetar uma nova obra, como uma rodovia, há de se ter uma série de cuidados, e o licenciamento ambiental é bastante rigoroso. Uma vez tendo sido cumpridos os requisitos da legislação ambiental, atualmente parte integrante de qualquer projeto, não existem impedimentos a qualquer obra, seja ela rodoviária ou ferroviária.

MO – Então podemos dizer que o início da exploração e produção na camada de pré-sal irá exigir uma mudança nas políticas ambientais?
PV –
O pré-sal é um detalhe dentro da grande e diversificada economia do Brasil. De importância inflada pela retórica política. Em termos globais, o consumo de petróleo teria que diminuir muitíssimo nas próximas duas a três décadas para o bem da humanidade. Temos todos que pensar, duramente, em reduzir o consumo de combustível fóssil que está rapidamente transformando para pior a biosfera como a conhecemos. Portanto, sob o ângulo ambiental, toda esta euforia que se infla em torno do pré-sal soa ambígua e interesseira. Mas voltando ao transporte, uma política ambiental e energética racional deveria enfatizar grandemente o uso de hidrovias ou ferrovias, que podem, em parte, ser eletrificadas utilizando energia hidrelétrica. Isso reduziria muito as emissões de dióxido de carbono, considerado o maior problema ambiental do sistema de transportes. Uma questão central do planejamento dos transportes deveria ser sua associação com o planejamento energético e ambiental do país.

MO – Os estados de São Paulo e Espírito Santo irão receber uma significativa remessa de investimentos oriundos do pré-sal. Diante das futuras demandas, como avalia as ações que a iniciativa privada e o governo estão preparando para atender a este novo cenário?
PV –
Nesses dois estados, os investimentos direcionados pelo poder público e privado estão sendo adequadamente aplicados, além de possuírem um programa logístico satisfatório, seriamente trabalhado. Em termos de planejamento e condução, acredito que as ações de incentivo têm sido positivas. Entretanto, a cidade de Vitória deverá se preparar urbanisticamente melhor e de forma rápida porque ela está ficando estrangulada por excesso de trânsito e tráfego, provocado pela migração de pessoas atraídas pelas atividades em desenvolvimento.

MO – Então, quais ações devem ser implementadas pelos demais estados a fim de resolver suas deficiências?
PV –
Tudo depende da qualidade da administração pública nos municípios e presumo que estejam preparados para identificar e sanar suas necessidades. As riquezas minerais são esgotáveis e o melhor a fazer é conciliar sua exploração com a aplicação de seus dividendos em ações destinadas à educação, desfavelização, saneamento, infraestrutura produtiva, dentre outras, e não em assistencialismo ou obras eleitoreiras. Esses recursos deveriam ser aplicados de forma transparente, sob o olhar crítico da sociedade local, neutralizando-se o inevitável assédio da corrupção.

 

 
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